Jornal do CREA-RS - Junho / 2004 - Ano XXX - Nš 03
 
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Cacique em processo de pintura
Resgate da cultura indígena à beira da BR 116

Apoio de empresário moveleiro auxilia índios a tirarem o máximo de proveito de seu trabalho com artesanato

Surgiu em um acampamento precário à beira da BR 116, no bairro São Miguel, em São Leopoldo, uma parceria que está gerando renda aos índios acampados e agregando valor a móveis e utensílios. O empresário Romar Bordignon e os caingangues estão aliando os conhecimentos ancestrais dos índios à tecnologia do mundo moderno e criando peças em conjunto. O empresário ensinou os nativos a trançarem suas fibras de forma plana para assim serem aproveitadas em móveis. Os índios agora fabricam malhas grandes de bambu em diversas cores que são aplicadas em mesas, bandejas, cristaleiras, entre outros.

O trabalho é minucioso e requer muito habilidade e criatividade. O bambu é desfiado com uma faca, cada ripa recebe a cor desejada através de um pincel estilizado. Depois da secagem, os índios trançam e dão formas a cestos e malhas planas. “Os desenhos são variados, regulares e irregulares, fazem parte da cultura deles, cada tribo faz um tipo de desenho, que também varia conforme o estado de espírito”, comenta Bordignon. “ Nosso objetivo com este processo é resgatar a dignidade dos índios valorizando sua cultura e gerando renda”.

Para o arquiteto e designer Cyro Bonetto, que se responsabiliza pela criação das peças montadas, é preciso quebrar paradigmas, misturar estilos, cores e produtos, chamar a atenção de um produto mostrando a sua utilidade, beleza e custo. “O Brasil é um país tropical e a fibra natural é uma tendência na indústria moveleira nacional, e como somos fruto de um meio com raízes artesanais, logo, propondo utensílios e móveis alegres, coloridos, cuidadosamente pensados em cada detalhe, refletiremos essa realidade na delicadeza e na cultura dos povos indígenas”, comenta o designer.
O resultado desta troca de informações será lançada na São Leopoldo Fest – Feira do Imigrante, que acontece de oito a 25 de julho no centro de convenções de São Leopoldo. “Nosso estande será de 48m² e teremos em exposição todas as peças criadas”, diz Bordignon. “Esperamos através disso mostrar a viabilidade do material fabricado pelos índios, pois os móveis são fabricados com diversos critérios de durabilidade, já fizemos vários testes”.
 

Mesas criadas pelo arquiteto Bonetto
Situação de vida precária

Atualmente, índios caingangues acampam à beira da BR 116 em condição miserável. São barracas espalhadas por um terreno de 800m², onde apenas existe uma torneira de água como infra-estrutura. Aproximadamente 60 pessoas vivem ali e têm o artesanato como única renda. Desde que chegaram à cidade há quatro anos, aguardam o apoio da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado sobre a disponibilidade de um terreno para se instalarem definitivamente. “ Nosso artesanato é nosso sustento, sem ele não teríamos a mesma renda no mês”, comenta o cacique José Vergueiro. “Desta forma corremos menos risco, pois ainda sofremos preconceito, e assim garantimos a sobrevivência da comunidade”.

As famílias, que deixaram suas aldeias de origem depois do desmatamento, optaram pela cidade grande em busca de melhoria de qualidade de vida futura. “E conforme a constituição de 1988, os índios do sul adquiriram o direito de ir e vir”, diz o cacique. “Hoje temos o direito de escolha e esperamos ficar aqui, pois nas aldeias nosso trabalho é menos valorizado e aqui meus filhos estudam, não quero para eles o mesmo ofício meu”. Pessoas simples e de poucas necessidades, os caingangues respeitam e incentivam a manutenção de sua cultura, mantendo prioritariamente a língua caingangue.

Além dos produtos, o empresário Romar Bordignon ainda idealizou um projeto que prevê a instalação de uma aldeia, com a construção de moradias e locais de trabalho para os índios. “O Centro Cultural teria o objetivo de resgatar a cultura indígena e desenvolver projetos de sustentabilidade”, diz Bordignon. “Funcionaria como uma aldeia-escola: das vinte casas do projeto, dez ou doze deveriam abrigar famílias fixas e as restantes serviriam de abrigo para famílias vindas das aldeias para aprender técnicas de artesanato- cerâmica, turismo e plantio de cultivares de valor agregado, como cogumelo, pois com o aumento populacional dos índios, as reservas ficam cada vez menores”.

Projetos como esse têm um longo percurso a percorrer dentro dos órgãos públicos e nem sempre são bem aceitos, pois vêm dissociados de burocracia. Segundo Ivonete Camprecher, coordenadora executiva do Conselho Estadual dos Povos Indígenas, a solução está no programa lançado pelo Governo do Estado, o Programa Estadual de Inclusão Indígenas nas Políticas Públicas, que visa atender com infra-estrutura básica e zerar o déficit habitacional dos índios em três anos. “Serão 1600 casas praticamente sem custo graças a parcerias com empresas”, diz Ivonete. “Os caingangues de São Leopoldo estão contemplados, mas precisamos arranjar o terreno”.

O terreno vem sendo o maior entrave para o auxílio à comunidade. Segundo garantiu Felipe Araújo, secretário de Urbanismo de São Leopoldo, o município, União e Governo Estadual vão buscar a melhor opção para abrigar os índios que hoje estão acampados em terreno irregular. “Sabemos que antes de pedir a reintegração de posse do terreno, temos que arranjar uma solução para os índios, esperamos que cheguemos o quanto antes numa solução”.
 
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