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Cacique
em processo de pintura |
Resgate
da cultura indígena à beira da BR 116
Apoio de empresário moveleiro auxilia índios
a tirarem o máximo de proveito de seu trabalho
com artesanato
Surgiu em um acampamento precário à
beira da BR 116, no bairro São Miguel, em São
Leopoldo, uma parceria que está gerando renda
aos índios acampados e agregando valor a móveis
e utensílios. O empresário Romar Bordignon
e os caingangues estão aliando os conhecimentos
ancestrais dos índios à tecnologia do
mundo moderno e criando peças em conjunto.
O empresário ensinou os nativos a trançarem
suas fibras de forma plana para assim serem aproveitadas
em móveis. Os índios agora fabricam
malhas grandes de bambu em diversas cores que são
aplicadas em mesas, bandejas, cristaleiras, entre
outros.
O trabalho é minucioso e requer muito habilidade
e criatividade. O bambu é desfiado com uma
faca, cada ripa recebe a cor desejada através
de um pincel estilizado. Depois da secagem, os índios
trançam e dão formas a cestos e malhas
planas. “Os desenhos são variados, regulares
e irregulares, fazem parte da cultura deles, cada
tribo faz um tipo de desenho, que também varia
conforme o estado de espírito”, comenta
Bordignon. “ Nosso objetivo com este processo
é resgatar a dignidade dos índios valorizando
sua cultura e gerando renda”.
Para o arquiteto e designer Cyro Bonetto, que se responsabiliza
pela criação das peças montadas,
é preciso quebrar paradigmas, misturar estilos,
cores e produtos, chamar a atenção de
um produto mostrando a sua utilidade, beleza e custo.
“O Brasil é um país tropical e
a fibra natural é uma tendência na indústria
moveleira nacional, e como somos fruto de um meio
com raízes artesanais, logo, propondo utensílios
e móveis alegres, coloridos, cuidadosamente
pensados em cada detalhe, refletiremos essa realidade
na delicadeza e na cultura dos povos indígenas”,
comenta o designer. |
O
resultado desta troca de informações
será lançada na São Leopoldo
Fest – Feira do Imigrante, que acontece de oito
a 25 de julho no centro de convenções
de São Leopoldo. “Nosso estande será
de 48m² e teremos em exposição
todas as peças criadas”, diz Bordignon.
“Esperamos através disso mostrar a viabilidade
do material fabricado pelos índios, pois os
móveis são fabricados com diversos critérios
de durabilidade, já fizemos vários testes”. |
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Mesas criadas pelo arquiteto Bonetto |
Situação
de vida precária
Atualmente, índios caingangues acampam à
beira da BR 116 em condição miserável.
São barracas espalhadas por um terreno de 800m²,
onde apenas existe uma torneira de água como
infra-estrutura. Aproximadamente 60 pessoas vivem ali
e têm o artesanato como única renda. Desde
que chegaram à cidade há quatro anos,
aguardam o apoio da Prefeitura Municipal e do Governo
do Estado sobre a disponibilidade de um terreno para
se instalarem definitivamente. “ Nosso artesanato
é nosso sustento, sem ele não teríamos
a mesma renda no mês”, comenta o cacique
José Vergueiro. “Desta forma corremos menos
risco, pois ainda sofremos preconceito, e assim garantimos
a sobrevivência da comunidade”.
As famílias, que deixaram suas aldeias de origem
depois do desmatamento, optaram pela cidade grande em
busca de melhoria de qualidade de vida futura. “E
conforme a constituição de 1988, os índios
do sul adquiriram o direito de ir e vir”, diz
o cacique. “Hoje temos o direito de escolha e
esperamos ficar aqui, pois nas aldeias nosso trabalho
é menos valorizado e aqui meus filhos estudam,
não quero para eles o mesmo ofício meu”.
Pessoas simples e de poucas necessidades, os caingangues
respeitam e incentivam a manutenção de
sua cultura, mantendo prioritariamente a língua
caingangue.
Além dos produtos, o empresário Romar
Bordignon ainda idealizou um projeto que prevê
a instalação de uma aldeia, com a construção
de moradias e locais de trabalho para os índios.
“O Centro Cultural teria o objetivo de resgatar
a cultura indígena e desenvolver projetos de
sustentabilidade”, diz Bordignon. “Funcionaria
como uma aldeia-escola: das vinte casas do projeto,
dez ou doze deveriam abrigar famílias fixas e
as restantes serviriam de abrigo para famílias
vindas das aldeias para aprender técnicas de
artesanato- cerâmica, turismo e plantio de cultivares
de valor agregado, como cogumelo, pois com o aumento
populacional dos índios, as reservas ficam cada
vez menores”.
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Projetos
como esse têm um longo percurso a percorrer dentro dos
órgãos públicos e nem sempre são
bem aceitos, pois vêm dissociados de burocracia. Segundo
Ivonete Camprecher, coordenadora executiva do Conselho Estadual
dos Povos Indígenas, a solução está
no programa lançado pelo Governo do Estado, o Programa
Estadual de Inclusão Indígenas nas Políticas
Públicas, que visa atender com infra-estrutura básica
e zerar o déficit habitacional dos índios em
três anos. “Serão 1600 casas praticamente
sem custo graças a parcerias com empresas”, diz
Ivonete. “Os caingangues de São Leopoldo estão
contemplados, mas precisamos arranjar o terreno”.
O terreno vem sendo o maior entrave para o auxílio
à comunidade. Segundo garantiu Felipe Araújo,
secretário de Urbanismo de São Leopoldo, o município,
União e Governo Estadual vão buscar a melhor
opção para abrigar os índios que hoje
estão acampados em terreno irregular. “Sabemos
que antes de pedir a reintegração de posse do
terreno, temos que arranjar uma solução para
os índios, esperamos que cheguemos o quanto antes numa
solução”. |
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