Jornal do CREA-RS - Dezembro / 2003 - Ano XXIX - Nš 08
 
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CÂMARA DE AGRONOMIA

Produzir mais grãos? Guardar onde?

Eng. agr. e de seg. do trab. Moisés Souza Soares
Cons. Representante da UPF

O Brasil, a curto prazo, deverá ser o maior produtor de soja do Mundo, sem ter onde armazená-la.

A curto, ou mais tardar, a médio prazo nosso País deverá duplicar sua produção de grãos, em especial no que diz respeito a produção de soja. Temos ainda muitas fronteiras agrícolas por desbravar. Alguns dados relativos nos levam a esse raciocínio: em números redondos cultivamos hoje, no Brasil, em torno de 19 milhões de ha, com soja e os EEUU, algo em tono de 30 milhões de ha, com essa leguminosa., estando eles, com suas fronteiras “estouradas”. As produtividades dos dois países são mais ou menos semelhantes. A grande diferença está no fato dos americanos não terem mais onde cultivar soja e os brasileiros ainda têm 90 milhões de hectares, por cultivar e, não estamos falando em derrubar florestas para isso.

Recentemente estive no Estado do Pará, ministrando cursos de Segurança do Trabalho no Meio Rural, em quatro municípios: Belém, Santarém, Paragominas e São Miguel do Gaumá. O que vi lá, é digno de registro. Em Paragominas, localizado a 300 e pouco quilômetros ao sul de Belém, as chamadas “terras alteradas”, que há muitos anos eram florestas que foram derrubadas para desenvolvimento da pecuária e hoje apresentam solo muito pobre com pastagens também pobre. Os pecuaristas comentam que, no começo, colocavam até 3 cabeças de gado por hectare e hoje o processo se inverteu pois são necessários até 3 ha para uma cabeça de gado. A grande alternativa que surgiu, com muito gaúcho no meio, foi de passar da pecuária para a agricultura e a escolhida foi a soja, com uso de tecnologia de fertilização, que é o que está faltando uma vez que chuva, calor e muita luz, existem em profusão. Nesse município, informações do secretário da agricultura, indicam já existirem implantados 40 mil hectares de lavoura de soja e, no dizer de seu prefeito, fácil, fácil, nos próximos dois anos deverá chegar a 500 mil. Igualmente na região de Santarém, mais ao norte do estado, existem atividades desse tipo, como também em vários outros municípios. A região é privilegiada, para trabalhos com exportação através dos porto fluviais, que já estão se preparando para isso: Belém e Santarém, as margens do Tapajós se misturando com o Amazonas, estando esses porto, geograficamente, muito mais próximo da América do Norte e mesmo da Europa do que as demais regiões produtoras.

Entretanto, a par de tanta euforia, parece que uma coisa ainda não foi percebida: Nosso País não possui infra-estrutura de armazenagem para os grãos que produz atualmente, imaginem se duplicarmos a produção de soja, o que pode acontecer no máximo em 5 anos. Onde vamos colocar esses grãos? Os estados, como o Rio Grande do Sul, por exemplo, que está com sua Companhia Estadual de Silos e Armazéns, CESA, simplesmente, sucateada e com capacidade estagnada há muitos anos, por falta de investimento mesmo para reformas.

Urge que o Governo Federal perceba a necessidade de “retomar” programas como o “Pronazém”, adormecido desde 1984, que financiava construção de armazéns em 10 ano, com dois anos de carência e juros de 9%, ao ano, com uma inflação que não raras vez beirava os 30% ao mês, atualizá-lo e disponibilizar verba para a construção de novas unidades armazenadoras, sob pena de não termos onde guardar nossa produção, como já aconteceu no Brasil central, com grãos sendo ensacados e empilhados ao ar livre, coberto com plásticos, proporcionando grandes perdas.

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