| CÂMARA
DE AGRONOMIA
Produzir mais grãos?
Guardar onde?
Eng. agr. e de seg. do trab. Moisés Souza Soares
Cons. Representante da UPF
O Brasil, a curto prazo, deverá ser o maior produtor
de soja do Mundo, sem ter onde armazená-la.
A curto, ou mais tardar, a médio prazo nosso País
deverá duplicar sua produção de grãos,
em especial no que diz respeito a produção de
soja. Temos ainda muitas fronteiras agrícolas por desbravar.
Alguns dados relativos nos levam a esse raciocínio:
em números redondos cultivamos hoje, no Brasil, em
torno de 19 milhões de ha, com soja e os EEUU, algo
em tono de 30 milhões de ha, com essa leguminosa.,
estando eles, com suas fronteiras “estouradas”.
As produtividades dos dois países são mais ou
menos semelhantes. A grande diferença está no
fato dos americanos não terem mais onde cultivar soja
e os brasileiros ainda têm 90 milhões de hectares,
por cultivar e, não estamos falando em derrubar florestas
para isso.
Recentemente estive no Estado do Pará, ministrando
cursos de Segurança do Trabalho no Meio Rural, em quatro
municípios: Belém, Santarém, Paragominas
e São Miguel do Gaumá. O que vi lá, é
digno de registro. Em Paragominas, localizado a 300 e pouco
quilômetros ao sul de Belém, as chamadas “terras
alteradas”, que há muitos anos eram florestas
que foram derrubadas para desenvolvimento da pecuária
e hoje apresentam solo muito pobre com pastagens também
pobre. Os pecuaristas comentam que, no começo, colocavam
até 3 cabeças de gado por hectare e hoje o processo
se inverteu pois são necessários até
3 ha para uma cabeça de gado. A grande alternativa
que surgiu, com muito gaúcho no meio, foi de passar
da pecuária para a agricultura e a escolhida foi a
soja, com uso de tecnologia de fertilização,
que é o que está faltando uma vez que chuva,
calor e muita luz, existem em profusão. Nesse município,
informações do secretário da agricultura,
indicam já existirem implantados 40 mil hectares de
lavoura de soja e, no dizer de seu prefeito, fácil,
fácil, nos próximos dois anos deverá
chegar a 500 mil. Igualmente na região de Santarém,
mais ao norte do estado, existem atividades desse tipo, como
também em vários outros municípios. A
região é privilegiada, para trabalhos com exportação
através dos porto fluviais, que já estão
se preparando para isso: Belém e Santarém, as
margens do Tapajós se misturando com o Amazonas, estando
esses porto, geograficamente, muito mais próximo da
América do Norte e mesmo da Europa do que as demais
regiões produtoras.
Entretanto, a par de tanta euforia, parece que uma coisa ainda
não foi percebida: Nosso País não possui
infra-estrutura de armazenagem para os grãos que produz
atualmente, imaginem se duplicarmos a produção
de soja, o que pode acontecer no máximo em 5 anos.
Onde vamos colocar esses grãos? Os estados, como o
Rio Grande do Sul, por exemplo, que está com sua Companhia
Estadual de Silos e Armazéns, CESA, simplesmente, sucateada
e com capacidade estagnada há muitos anos, por falta
de investimento mesmo para reformas.
Urge que o Governo Federal perceba a necessidade de “retomar”
programas como o “Pronazém”, adormecido
desde 1984, que financiava construção de armazéns
em 10 ano, com dois anos de carência e juros de 9%,
ao ano, com uma inflação que não raras
vez beirava os 30% ao mês, atualizá-lo e disponibilizar
verba para a construção de novas unidades armazenadoras,
sob pena de não termos onde guardar nossa produção,
como já aconteceu no Brasil central, com grãos
sendo ensacados e empilhados ao ar livre, coberto com plásticos,
proporcionando grandes perdas. |