| CÂMARA
DE ENGENHARIA CIVIL
Apontamentos
sobre espaço e geografia
Geóg. Iván G. Peyré Tartaruga, MSc
Presidente da AGP/RS
A propósito do artigo do arquiteto Elvan Silva intitulado
“O espaço da controvérsia” (Jornal
do CREA de fevereiro de 2003, p. 9). Centralizo minhas colocações
sobre esse texto nos aspectos referentes à perspectiva
do geógrafo quanto ao espaço geográfico,
em geral, e ao espaço urbano, mais especificamente.
Esse texto, primeiramente, parece demonstrar uma dificuldade
do referido arquiteto, que não se deve estender à
arquitetura, em dialogar com outras ciências, especialmente
com a geografia.
Ao falar da “Organização do Espaço”,
Elvan Silva diz que este termo é sofisticado e exclusivo
da arquitetura; porém, na geografia já é
abordado, de forma latente, pelo geógrafo francês
Vidal de La Blache (precursor do possibilismo) no final do
século XIX, e toma corpo – como conceito operacional
essencial ao fazer geográfico – após a
2ª Guerra Mundial, durante o desenrolar da corrente de
pensamento geográfico conhecida como “Nova Geografia”.
Posteriormente, os geógrafos da corrente de pensamento
denominada “Geografia Crítica”, durante
as décadas de 1970 e 1980, realizam avanços
importantes na questão da organização
espacial: o principal trata-se de ultrapassar as descrições
de padrões espaciais e analisar, também, as
relações entre as formas espaciais e os processos
sociais históricos – perspectiva dialética.
Desde de o século XIX, portanto, a geografia esforça-se
em fazer e em compreender a organização do espaço.
Diversamente do que supõe Silva, a geografia possui
como um dos seus principais conceitos-chave (juntamente com
os conceitos de paisagem, região, lugar e território)
o de espaço, para analisar e atuar sobre a sociedade.
Cada um desses conceitos, sobretudo o de espaço, tem
sido alvo de amplo debate dentro da geografia. Consideremos,
só com o intuito de exemplificar, o conceito de espaço
exposto, de forma simplificada e direta, no livro “A
Natureza do Espaço” do geógrafo Milton
Santos (obra que, no ano de 1997, recebeu o prêmio Jabuti
na categoria de Ciências Humanas): o espaço é
definido “por um conjunto indissociável, solidário
e também contraditório, de sistemas de objetos
e sistemas de ações, não considerados
isoladamente, mas como o quadro único no qual a história
se dá”. Conceito que, segundo Milton Santos,
é fundamental para, num primeiro momento, compreender
a sociedade e, num momento posterior, aperfeiçoar a
atuação sobre este mesmo sistema social. O saber
geográfico, portanto, está muito longe de limitar-se
tão-somente ao estudo (ou descrição)
da Terra, como supõe erroneamente Silva, apesar de
importante como parte integrante do trabalho do geógrafo.
Por outro lado, Silva supõe, também erroneamente
ao nosso entender, que a organização do espaço
urbano (sobretudo quanto ao Planejamento Urbano) seria um
campo de atuação exclusivo, ou pelo menos de
liderança, dos arquitetos e urbanistas. Para desatar
esse nó de uma prerrogativa de atuação
profissional, que evidentemente empobrece a temática,
nos parece interessante a seguinte formulação:
no seu livro “O Desafio Metropolitano” (vencedor
do Prêmio Jabuti 2001 na categoria Ciências Humanas),
o geógrafo Marcelo Lopes de Souza ensina que o espaço
urbano, considerado em sua complexidade, possui diversas dimensões
a serem analisadas:
“Sua dimensão econômica enquanto produto
material da sociedade no âmbito do processo de trabalho,
continente de recursos e realidade relacional que comporta
localizações diferentemente valorizadas; sua
dimensão política enquanto território
e arena de luta; sua dimensão cultural e (inter)subjetiva
enquanto lugar e, também, a sua vinculação
com o ‘espaço físico’ originário
e pré-social por meio da atuação das
forças naturais e da existência de ecossistemas
e geossistemas”.
Essa formulação desvela a importância
de uma leitura multidisciplinar – ou melhor, das leituras
multidisciplinares – do espaço urbano, que se
pode estender, evidentemente, ao espaço social em geral.
Daí decorre a conclusão de que tal consideração,
que não vem somente da ciência geográfica,
traz a necessidade da participação, no planejamento
das cidades, dos mais diversos profissionais – engenheiros,
arquitetos, geógrafos, só para citar alguns
do sistema CONFEA/CREAs –, como também dos cidadãos
e das cidadãs comuns que vivem na/da cidade.
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