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Brasil sem diagnóstico trava avanço da infraestrutura


Créditos: Arquivo Freepik

Sem um diagnóstico nacional estruturado sobre infraestrutura, decisões sobre onde alocar investimentos acabam fragmentadas entre municípios, estados, ministérios e ciclos eleitorais, muitas vezes guiadas mais por pressões políticas do que por evidências técnicas. O resultado é sentido no cotidiano: energia instável, mobilidade ineficiente, déficit de saneamento e serviços públicos que não acompanham as necessidades da população. Governar sem métricas claras, alertam especialistas, é abrir espaço para desperdício de recursos e manutenção de desigualdades históricas.

É nesse contexto que surge o Infra-BR, índice que está sendo criado pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) para reunir indicadores de energia e conectividade; meio ambiente e resiliência; bem-estar social e cidadania; mobilidade; saneamento básico; e água. Elaborado em parceria com a mesma equipe de pesquisadores que desenvolveu o IPS-Brasil e inspirado em experiências internacionais como a da American Society of Civil Engineers (Asce), o índice pretende oferecer uma metodologia sólida e transparente para orientar políticas públicas.

A previsão é de que o site do Infra-BR seja disponibilizado ao público ainda neste mês, segundo o presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese. “A infraestrutura é um desafio, mas o maior desafio é identificar onde aplicar os recursos: em qual estado, em qual segmento. Com base em indicadores, será possível distinguir o que é urgente do que pode ser planejado no médio prazo, fortalecendo a lógica de priorização baseada em evidências”, afirma Marchese.

Políticas públicas
Países modernos dependem de índices nacionais porque políticas públicas exigem diagnóstico estruturado. “Sem métricas claras, governos podem acabar concentrando esforços apenas na execução orçamentária, por exemplo, sem avaliar se os investimentos estão produzindo resultados concretos para a população. Um índice permite identificar gargalos, desigualdades territoriais, riscos sistêmicos e lacunas de informação, por exemplo”, observa Telma Hoyler, doutora em Ciência Política pela USP, pesquisadora-consultora de políticas públicas e professora do Mestrado Profissional em Gestão Pública e Políticas Públicas do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).

Segundo o professor e pesquisador Ricardo Chaves Lima, o Brasil investe apenas 1,8% do PIB em infraestrutura, quando deveria aplicar cerca de 6,5%, o equivalente a R$ 650 bilhões anuais. “Hoje é impossível o país crescer mais do que 2,5% ao ano com a infraestrutura que tem”, avalia. Para ele, índices como o Infra-BR permitem que esses recursos não sejam “jogados de qualquer jeito”, mas direcionados a áreas com maior retorno social e econômico.

Investimentos contínuos
Indicadores também transformam políticas de governo em políticas de Estado. Ao estabelecer métricas comparáveis ao longo do tempo, tornam possível monitorar avanços, retrocessos e tendências estruturais, ultrapassando ciclos eleitorais, como alerta a American Society of Civil Engineers (Asce) sobre a necessidade de investimentos contínuos. “Adiar as melhorias nas estradas, pontes, transporte público e serviços públicos custará tempo e dinheiro para famílias e empresas, além de criar situações inseguras, muitas vezes evitáveis”, pontua a entidade no Relatório de Desempenho de 2025. “Investimentos contínuos são essenciais para assegurar que o planejamento se traduza em desenvolvimento, além de viabilizar grandes projetos de infraestrutura”, acrescenta o documento.

O engenheiro eletricista, especialista em iluminação pública e energia renovável e idealizador da Rede Mineira de Cidades Inteligentes e Sustentáveis, Igor Braga Martins, reforça a importância de investimentos contínuos. “Frequentemente, projetos de infraestrutura são interrompidos por trocas de gestão. O uso de métricas comparáveis e padronizadas funciona como uma ‘blindagem técnica’, transformando planos de governo em políticas de Estado, pois avanços de gestões anteriores devem ser mantidos para que novas ações gerem ganhos cumulativos nos indicadores”, observa.  

Em um país que ainda carece de planejamento sistêmico, medir é o primeiro passo para construir cidades inteligentes com espaços e serviços melhores para os cidadãos. “Quando temos métricas claras de desempenho urbano — seja em mobilidade, saneamento ou eficiência energética —, conseguimos desenhar projetos e serviços de engenharia que atendam às demandas reais da população”, conclui o engenheiro.

Nos próximos dias, acompanhe nos canais de comunicação do Confea mais informações sobre a plataforma do Infra-BR.
 

Equipe de Comunicação do Confea
Foto: Freepik

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