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Quando a fantasia entra na avenida, a engenharia sustenta o espetáculo


Fantasia tecnológica da rainha de bateria da Rosas de Ouro, escola vencedora do Carnaval de São Paulo em 2025. . Créditos: Arquivo Confea

Quando a bateria esquenta, as luzes se refletem nos tecidos e milhares de corpos se movem em perfeita sintonia, o Carnaval revela muito mais do que brilho e ritmo. Enquanto o público vê plumas, paetês e cores vibrantes, a engenharia enxerga sistemas, cálculos e escolhas técnicas cuidadosamente planejadas. Por trás de cada fantasia que cruza a avenida, há um engenheiro que transformou criatividade em estrutura, arte em desempenho e espetáculo em segurança. É justamente essa harmonia entre imaginação e ciência que faz do Carnaval brasileiro não apenas o maior espetáculo da Terra, mas também uma verdadeira aula de engenharia em movimento.

De acordo com o engenheiro têxtil Brenno Henrique, toda fantasia começa como um projeto técnico. “Uma estrutura têxtil é, na verdade, um sistema complexo; ela resulta da combinação técnica de diversas variáveis”. Antes mesmo de pensar em brilho ou plumas, entram em cena decisões fundamentais: será malha, tecido plano ou nãotecido (TNT)? Tela, sarja ou cetim? Cada escolha define como a fantasia vai se comportar no corpo do componente durante o desfile.

Para garantir mobilidade total, que é essencial para quem samba por mais de uma hora, a engenharia aposta em estruturas de malharia de alta performance. Elas permitem que o corpo se mova livremente, sem deformar a peça. Já quando o desafio é sustentar volumes, adereços e alegorias vestíveis, entram tecidos planos como Ripstop ou Oxford, conhecidos pela estabilidade e resistência à tração.

O equilíbrio entre força e conforto também passa pelas fibras. O poliéster entrega durabilidade, enquanto algodão e modal oferecem toque agradável à pele. E um detalhe quase invisível faz toda a diferença na avenida. “A introdução de elastano – muitas vezes em proporções pequenas, em torno de 3% – viabiliza bastante a recuperação elástica necessária para o dinamismo coreográfico da avenida”, comenta Brenno, que é subcoordenador do curso de Engenharia Têxtil na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O impacto visual das fantasias de Carnaval que hipnotiza o público nasce, muitas vezes, nos laboratórios. Processos de acabamento transformam tecidos comuns em superfícies dignas da Sapucaí – Foto: Freepik

Muito além da escolha estética, o papel da engenharia têxtil no ramo carnavalesco é traduzir as exigências do desfile em soluções técnicas precisas. “Cabe ao engenheiro têxtil calibrar parâmetros fundamentais como a torção e a densidade linear dos fios, a gramatura do tecido e a aplicação de acabamentos químicos funcionais, que incluem proteção UV, repelência à água e tecnologias de gerenciamento de umidade”, explica o professor que trabalha no emprego de nanotecnologia em materiais têxteis, com destaque para o desenvolvimento de tecidos funcionais, como os antimicrobianos e os que protegem a pele de raios ultravioleta (UV).

“A engenharia química também contribui de forma decisiva para o desenvolvimento de produtos com excelente desempenho e múltiplas funcionalidades”, frisa Catia Lange, doutora na área pela UFSC, com cerca de 20 anos de atuação em beneficiamento químico têxtil, desenvolvimento de produtos, tratamento de efluentes, além de controle e otimização de processos industriais. O trabalho do engenheiro químico no setor têxtil inclui, por exemplo, desenvolver corantes mais eficientes e estáveis ao longo tempo; otimizar em larga escala o consumo de água e energia; e propor soluções sustentáveis, como a reciclagem de tecidos e o uso de corantes naturais.

Engenheiro têxtil Brenno Henrique, engenheira química Catia Lange e engenheira têxtil Fernanda Steffens, professores do Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Fotos: arquivo pessoal

Fantasia é engenharia em camadas

Uma fantasia de Carnaval não é uma peça única, mas um verdadeiro “sanduíche” de materiais: tecidos leves e pesados, estruturas internas, costuras, colagens e aplicações. Para que tudo funcione sem machucar, pesar ou rasgar, a integração dessas camadas precisa ser milimetricamente pensada.

A costura não é apenas acabamento; mas é elemento estrutural. Tecidos elásticos pedem pontos específicos para acompanhar o movimento. A escolha errada do equipamento ou da densidade de pontos pode gerar o temido “efeito serrilha”, quando a agulha fragiliza o tecido e provoca rasgos prematuros.

Quando a costura não dá conta, entram as colagens. Mas nem toda cola serve. “O princípio fundamental é a compatibilidade química entre o adesivo e o polímero da fibra”, salienta Brenno. Uma colagem mal planejada cria rigidez excessiva, zonas de atrito e até ferimentos. “Por isso, a engenharia têxtil seleciona polímeros adesivos que mantenham a memória elástica do tecido, garantindo que a fantasia se mova em harmonia com o corpo”, acrescenta o especialista.

Nessa lógica de camadas que precisam funcionar como um único organismo, a engenheira têxtil Fernanda Steffens ressalta que o segredo está no rigor técnico na fase de confecção. A realização de ensaios preliminares é crucial para identificar ajustes necessários na modelagem ou na aplicação de adereços, evitando recortes ou estruturas que possam comprometer o conforto do folião ou não entregar o efeito visual esperado na avenida. “É importante seguir à risca as informações da ficha técnica apresentadas pelos fornecedores, como a quantidade correta de pontos por centímetro na costura de uma malha ou a temperatura de fusão adequada para fixar adereços termocolantes”, alerta a doutora em engenharia têxtil pela Universidade do Minho, em Portugal, docente na UFSC e especialista em desenvolvimento de têxteis técnicos e inteligentes. Fernanda reforça que o controle de qualidade ao longo da manufatura é decisivo para eliminar não conformidades antes que as peças cheguem aos componentes, assegurando que a fantasia permaneça íntegra, segura e confortável durante todo o desfile.

O papel da engenharia no ramo carnavalesco é traduzir as exigências do desfile em soluções técnicas precisas – Foto: Freepik

Brilho, proteção e segurança: engenharia a serviço da folia

O impacto visual das fantasias que hipnotiza o público nasce, muitas vezes, nos laboratórios. Processos de acabamento, chamados de beneficiamento secundário e terciário, transformam tecidos comuns em superfícies dignas da Sapucaí. A calandragem, por exemplo, usa pressão e temperatura para achatar a superfície das fibras e, assim, cria aquele aspecto vitrificado que reflete a luz da avenida. Já os efeitos metálicos mais intensos surgem com metalização superficial ou aplicação de resinas poliméricas especiais. “Nesses casos, a engenharia têxtil deve garantir que o ligante, ou a ‘cola’ química que fixa o brilho, mantenha a flexibilidade necessária, evitando que o acabamento ‘quebre’ ou descasque com a movimentação constante do folião, o que comprometeria tanto a estética quanto a durabilidade da peça”, detalha Brenno Henrique.

Além da estética, entram em cena acabamentos funcionais. Tecidos respiráveis, de secagem rápida e com proteção UV já fazem parte do mercado e são aliados importantes para garantir o bem-estar do folião, seja no sambódromo, nos blocos de Carnaval ou nos cortejos de rua. “Para obter produtos de secagem rápida, a engenharia têxtil tem atuado no desenvolvimento de fibras muito finas, chamadas de microfibras e com seções transversais específicas, que favorecem a remoção do suor”, comenta Fernanda Steffens. A proteção UV integrada desponta como outro diferencial para eventos realizados ao ar livre durante o dia, ajudando a proteger a pele da radiação solar. Nesse contexto, as pesquisas na área de engenharia têxtil avançam continuamente para ampliar a durabilidade e a eficiência desses acabamentos, como relata a engenheira: “A proposta é que a propriedade obtida permaneça maior tempo possível no tecido, principalmente quando submetido a processos de lavagens”.

Segurança também é palavra-chave. Em um ambiente com fogos, luzes e instalações elétricas, o risco de incêndio é real. Por isso, a aplicação de retardantes de chama nos tecidos é vital, reduzindo drasticamente a propagação do fogo em caso de acidentes. Tudo isso com controle rigoroso de pH e substâncias químicas, para evitar que os tecidos e adereços causem alergias, dermatites ou migração de corantes para a pele.

Desfile da Beija-Flor de Nilópolis, campeã do Carnaval do Rio de Janeiro no ano passado. Em 2026, a escola de samba inova a produção ao confeccionar alguns elementos de fantasia em laboratório de indústria 4.0, com auxílio de impressora 3D. Após o Carnaval, essas peças poderão ser trituradas e transformadas em filamentos, tornando-se matéria-prima para novas peças e contribuindo para a economia circular – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Carnaval mais verde: engenharia e sustentabilidade

Depois que a última ala deixa a avenida, fica a pergunta: o que fazer com toneladas de materiais usados por poucas horas? Para Brenno, a engenharia têxtil tem papel estratégico na construção de um Carnaval mais sustentável, liderando a substituição de fibras sintéticas convencionais por polímeros biodegradáveis, bioplásticos e fibras recicladas, como o poliéster proveniente de garrafas PET. “Além da substituição de fibras, uma das soluções mais promissoras é o uso de biomateriais à base de micélio, aquela estrutura radicular dos fungos, que podem ser cultivados para mimetizar a textura e a resistência do couro, sendo totalmente orgânicos e compostáveis”, sugere.

A engenheira química Catia Lange amplia esse olhar ao pontuar que a sustentabilidade das fantasias deve ser pensada já na etapa de criação, com a análise de todo o ciclo de vida do produto. Segundo ela, avaliar previamente as possibilidades de reuso, reciclagem ou outras técnicas de pós-uso é primordial para reduzir os impactos ambientais. Nesse processo, o uso de fibras e acabamentos biodegradáveis ou recicláveis ganha protagonismo, embora a reciclagem de fantasias de Carnaval ainda represente um grande desafio devido à combinação de múltiplos materiais em uma única peça. “O cenário ideal é o reaproveitamento ou o reuso; quando isso não for possível, torna-se essencial a separação dos diferentes componentes da peça, permitindo que sejam reciclados individualmente”, afirma a professora da UFSC. Apesar de algumas fibras já permitirem reciclagem em larga escala, a presença de elastano, linhas, botões, paetês, penas e apliques dificulta tanto a reciclagem química quanto a mecânica. Por isso, Catia reforça que, para que uma fantasia seja de fato sustentável, ela precisa ser projetada desde a origem com foco em desmontagem, reaproveitamento e circularidade.

 

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Julianna Curado / Equipe de Comunicação do Confea, em parceria com o Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e apoio da Assessoria de Comunicação da UFSC

 

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