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Infra-BR mede se a água chega com qualidade às casas brasileiras


Em vez de considerar apenas a captação ou o volume produzido, o indicador busca entender como a água chega à população . Créditos: Foto: Freepik

Garantir água nas torneiras parece algo simples à primeira vista. Mas medir se esse acesso ocorre de forma segura, contínua e sustentável exige um olhar cuidadoso sobre diversos fatores. Foi justamente esse desafio que orientou o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) na construção da dimensão água do Infra-BR, um índice que avalia o desempenho da infraestrutura nos estados brasileiros. Em vez de considerar apenas a captação ou o volume produzido, o indicador busca entender como a água realmente chega à população e quais condições garantem sua qualidade.

Para chegar a esse retrato, os pesquisadores reuniram dados de diferentes fontes públicas e selecionaram indicadores capazes de revelar aspectos concretos da distribuição e qualidade da água. A escolha seguiu critérios rigorosos: fontes públicas e confiáveis, boa qualidade da informação, cobertura geográfica que permita comparações justas e comparabilidade temporal para viabilizar análise de tendências e identificação de desafios.

Distribuição
No componente distribuição, um dos pontos observados foi a desigualdade no acesso à água entre áreas urbanas e rurais. O indicador de Disparidade de Acesso Rural-Urbano (IBGE/Sidra) ajuda a revelar se a expansão dos sistemas de abastecimento tem sido inclusiva ou se é concentrada em áreas urbanas consolidadas. “Ao incorporar essa métrica, o índice reconhece que cobertura média elevada pode ocultar bolsões de exclusão”, frisa o relatório metodológico do Índice Confea de Infraestrutura do Brasil, o Infra-BR, que pode ser acessado pelo link www.infrabr.org.br  

Outro aspecto observado é a eficiência da distribuição. O Índice de Perdas de Água, calculado com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), mostra quanto da água tratada se perde antes de chegar às casas. Vazamentos nas redes, ligações clandestinas e falhas operacionais podem fazer com que uma parte significativa desse recurso se perca pelo caminho. Quanto maior o índice de perdas, maior também o desperdício de recursos naturais, energia e investimentos públicos.

A análise abrange ainda a continuidade do serviço. Para isso, o terceiro indicador do componente distribuição considera o percentual da população anual submetida a cortes no fornecimento de água tratada, com base no SNIS. O alerta recai sobre os impactos da intermitência no abastecimento: além de comprometer o direito ao acesso regular à água, ela amplia riscos sanitários, favorece o armazenamento inadequado e expõe fragilidades operacionais do sistema.

Qualidade
O componente qualidade da água distribuída também entra no cálculo. Dados do SISAGUA/DataSUS, do Ministério da Saúde, monitoram parâmetros importantes para a segurança sanitária. Entre eles, estão o percentual de amostras com cloro residual fora do padrão, o que pode indicar falhas na desinfecção; e a presença de coliformes totais, sinal de possível contaminação microbiológica. 

Nesse sentido, o acesso à água tratada vai muito além da infraestrutura: trata-se de uma medida essencial de saúde pública, capaz de reduzir doenças de veiculação hídrica, como diarreia e cólera, ainda presentes na realidade brasileira. Dados mais recentes revelam que o país registrou 336 mil internações e 4.877 mortes relacionadas a essas enfermidades em 2024. “O acesso à água tratada diminui esse número de doenças e, consequentemente, ele tem um impacto direto na saúde das crianças, no desenvolvimento escolar delas, na produtividade dos adultos e, consequentemente, na renda média do cidadão comum”, afirma a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, a engenheira civil Luana Pretto, ao pontuar que ao longo do tempo esses efeitos se acumulam, favorecendo não apenas a qualidade de vida imediata, mas também o desenvolvimento do país.
 

Acesse a plataforma www.infrabr.org.br para conferir o desempenho da infraestrutura brasileira

No site ainda é possível visualizar rankings, fazer comparações de dados e baixar mapas

 


Ferramenta para orientar decisões
A dimensão água do Infra-BR foi construída como um mosaico de informações que não se limitam à infraestrutura física. Ao combinar dados sobre distribuição e qualidade, o índice busca responder a uma pergunta simples, mas essencial: não apenas se existe estações de tratamento, mas se a água chega de forma segura, regular e sustentável para as pessoas. “Qualquer problema que a gente queira solucionar, primeiro a gente precisa de um diagnóstico pautado em dados, transformados em informação e conhecimento, para que se possa desenhar e acompanhar um plano para solução dos problemas”, comenta a presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, ao apontar o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil como ferramenta central para orientar decisões fundamentadas em evidências no setor.

Essa mesma lógica orienta a avaliação de especialistas do setor de infraestrutura. O engenheiro civil e executivo C-Level especialista na gestão de empresas e ativos de infraestrutura de grande porte, Roberto Aguiar, destaca que os indicadores do Infra-BR podem apoiar engenheiros, gestores públicos e formuladores de políticas na definição de prioridades e no planejamento de projetos capazes de tornar as cidades mais eficientes e sustentáveis. “Ao medir continuamente qualidade e distribuição do abastecimento, o Infra-BR permite identificar com precisão os principais gargalos dos sistemas de água nas cidades brasileiras, orientando diagnósticos técnicos e a priorização de investimentos”, afirma o especialista que já atuou na estruturação, implantação e gestão de projetos PPPs e concessões no Brasil e no exterior. 

Aguiar acrescenta que esses dados também ajudam a revelar falhas operacionais, trechos críticos de distribuição e necessidades de modernização das estações de tratamento e dos sistemas de monitoramento, contribuindo para a redução de riscos sanitários. Ele salienta ainda que os indicadores evidenciam desigualdades territoriais e perdas operacionais que muitas vezes passam despercebidas. “Essas informações orientam projetos de engenharia voltados à redução de perdas, ampliação da cobertura e planejamento da expansão urbana”, pontua o engenheiro civil, que foi convidado pelo Confea para contribuir com questões relacionadas à água na elaboração do Infra-BR.
 

Interpretação dos dados
Sobre a adequada interpretação dos indicadores do Infra-BR, o relatório metodológico explicita o significado de pontuações mais elevadas ou mais baixas, os riscos de uso indevido e os cuidados necessários na comparação entre unidades federativas. Para a compreensão dos indicadores da dimensão água, em especial, o documento orienta os usuários a considerar que as bases nacionais disponíveis permanecem fragmentadas entre setores, com distintos níveis de cobertura, periodicidade e padronização, especialmente no que se refere à articulação entre informações de saneamento, dados hidrológicos e parâmetros de qualidade da água. “Essa fragmentação limita, no estágio atual, a plena mensuração integrada das relações entre infraestrutura hídrica, saúde pública e sustentabilidade dos sistemas urbanos”, pondera o relatório.
 

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Julianna Curado / Equipe de Comunicação do Confea

 

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