O mundo deve ao geógrafo baiano Milton Santos (1926-2001) sua forma de atuar por meio desta ciência, desde a década de 1970 até os dias de hoje. Embora formado em Direito, Milton se tornou o emblema de uma Geografia Humana voltada para os aspectos da crítica social, em detrimento da Geografia descritiva e quantitativa de antanho. Em seu entendimento, o espaço é uma condicionante da sociedade, e não apenas mero palco para a ação humana. O seminário Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI, realizado pela USP a partir desta segunda-feira (4/5) e até sexta (8/5), homenageia o pesquisador.
Geógrafos como o francês Jacques Lévy e Maria Laura Silveira, da Universidade da Argentina, a historiadora Maria Auxiliadora da Silva (UFBA) e o sociólogo Miguel de Barros, de Guiné-Bissau, integram os palestrantes do seminário, que tem o professor Jaime Tadeu Oliva, ex-aluno de Milton, como um dos seus organizadores. Confira a entrevista com o pesquisador e a programação do seminário nesta página. Com o lançamento de “A Bahia nos Anos 50: cidade e região” (Edusp), na próxima quarta-feira (6/5), a USP promove ainda visitas guiadas ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).
Obras como “Pensando o espaço do homem”, “Ensaios sobre a urbanização latino-americana”; “O espaço do cidadão”; “A natureza do espaço” e “Por uma outra globalização” construíram uma trajetória homenageada pelo Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, maior comenda da área, em 1994. Atuante em diversas esferas públicas, o espaço era definido por ele como “um conjunto indissociável de sistemas de objetos e ações, o que significa dizer que o mundo material é inseparável das dinâmicas sociais, políticas, econômicas e técnicas”, conforme descreve a geógrafa Adriana Bernardes ao Jornal da Unicamp. “Para isso, tanto inovações industriais quanto o conjunto de normas, leis e conhecimentos seriam um meio para a ação humana no espaço”, continua.
Com reflexões sobre questões relacionadas à informação e à comunicação, o pensador baiano acreditava em uma sociedade globalizada em termos filosóficos e culturais. “A sociedade promove modificações, alterações e transformações no território, e isso provoca uma metamorfose que depois não volta mais e que condiciona as ações sociais. A observação miltoniana acerca dessa nova sociabilidade sugere que os sujeitos com escasso acesso aos recursos hegemônicos são os que possuem a maior autonomia intelectual para criar outras formas de existência e de organização”, considera o professor Márcio Cataia, valorizando a capacidade de resistência das periferias.
Sem exercer o Direito, Milton Santos foi subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República na Bahia e responsável pela comissão de Planejamento Econômico do governo baiano, na gestão de Jânio Quadros. As teorias de Milton Santos se aprofundaram durante o exílio nos anos 1970 em países como França, Estados Unidos, Canadá, Tanzânia, Venezuela, Peru e Nigéria. De volta ao Brasil, atuou ao lado da geógrafa Maria Adélia de Souza, na criação do Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental (Laboplan), da Unicamp, aprofundando suas pesquisas sobre a urbanização nos países subdesenvolvidos. Também ajudou a sedimentar entidades como a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) que, junto à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE), à União da Geomorfologia Brasileira (UGB), à Associação Brasileira de Climatologia (ABCIima) e à Associação Brasileira de Biogeografia (ABBIOGEO), elaborou um selo em homenagem à passagem do centenário.
Henrique Nunes / Equipe de Comunicação do Confea




