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Digitalização transforma gestão do saneamento e reduz perdas no país


Créditos: Confea

A incorporação de tecnologias digitais ao saneamento básico vem redefinindo a forma como os serviços são planejados, operados e monitorados no Brasil. A convergência de soluções como Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (IA), Big Data, computação em nuvem e gêmeos digitais dá origem ao chamado “Saneamento 4.0”, modelo que permite acompanhar, em tempo real, o desempenho dos sistemas e apoiar decisões mais rápidas e precisas. Nesse contexto, ativos físicos passam a ser geridos com base em dados, ampliando a eficiência operacional e a qualidade do atendimento à população.

Na prática, sensores distribuídos ao longo das redes coletam informações sobre pressão, vazão e qualidade da água, enquanto algoritmos analisam esses dados para identificar vazamentos, fraudes e outras anomalias antes que gerem impactos mais significativos. De acordo com a engenheira civil e mestre em engenharia ambiental e sanitária Mickaela Midon, iniciativas já em curso no país demonstram o potencial dessas tecnologias. “Um exemplo emblemático é o programa da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, que prevê a implantação de cerca de 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes, descrito como o maior projeto de IoT do setor de saneamento do mundo. Em outra frente, a paraibana Cagepa integrou GSAN (Sistema Integrado de Gestão de Serviços de Saneamento), GIS (Sistemas de Informação Geográfica), SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition) e sensores IoT em um mesmo ambiente e relatou redução média de 58% nas reclamações em áreas monitoradas, indicando ganhos concretos de nível de serviço”, destaca.

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A tradução dessas tecnologias em redução de custos passa, sobretudo, pela diminuição das perdas de água, pela otimização do consumo de energia elétrica no bombeamento e pela manutenção preditiva dos ativos, que evita reparos emergenciais e interrupções no abastecimento. Já a dimensão ambiental é reforçada por dois caminhos complementares: menos água tratada desperdiçada nas redes e maior capacidade de acompanhar o efetivo tratamento de esgoto, reduzindo a poluição de rios e mananciais. “Em um contexto regulatório marcado pelo Novo Marco Legal do Saneamento, estabelecido pela Lei nº 14.026/2020, que transformou metas de universalização e de redução de perdas em obrigações mensuráveis, a digitalização deixa de ser apenas um diferencial competitivo e passa a ser condição para a sustentabilidade técnica e financeira dos serviços”, comenta a especialista em gestão de recursos hídricos e diretora da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), entidade que integra o Sistema Confea/Crea.  

Papel do Infra-BR na definição de prioridades e no desenho de projetos

A engenheira considera o Infra-BR outra ferramenta fundamental para definir prioridades e desenhar projetos de saneamento básico. “A plataforma gratuita, disponibilizada pelo Confea, é baseada em fontes oficiais e permite comparar estados entre si e acompanhar a evolução ao longo do tempo, oferecendo aos engenheiros, gestores públicos e tomadores de decisão um diagnóstico padronizado que vai além de ciclos de gestão”, frisa Mickaela.

Para ela, indicadores como o Índice de Perdas de Água e a relação entre esgoto gerado e esgoto efetivamente tratado ajudam a identificar onde estão os maiores gargalos. “Os próprios dados divulgados pelo Infra-BR mostram disparidades regionais expressivas: no Nordeste, o saneamento básico aparece como principal gargalo, com Pernambuco registrando 31,02 pontos na dimensão e o Maranhão, apenas 18,85; no Norte, o pior desempenho do país é o do Acre, que atinge somente 11,28 pontos em saneamento. Em contraste, estados do Sul e do Centro-Oeste apresentam resultados bem superiores, como o Paraná, com 76,29, e o Distrito Federal, com 80,19.” Mickaela salienta que esse tipo de informação permite hierarquizar investimentos, direcionar recursos federais e estaduais para os territórios mais críticos e desenhar projetos aderentes à realidade local, em vez de soluções padronizadas.

“Para o engenheiro, o Infra-BR funciona como uma camada adicional ao diagnóstico técnico tradicional: ao cruzar seus indicadores com dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), planos municipais de saneamento básico e plataformas de IoT, GIS e gêmeos digitais das operadoras, é possível estruturar projetos mais robustos, justificar prioridades em estudos de viabilidade e monitorar, com métricas objetivas, o impacto das intervenções”, pontua. A especialista ressalta ainda os efeitos positivos da ferramenta para a gestão pública: “A plataforma do Infra-BR oferece transparência e comparabilidade, elementos fundamentais para a boa governança do saneamento e para o cumprimento das metas do Novo Marco Legal, contribuindo para cidades mais eficientes, resilientes e sustentáveis”.

Engenheira Mickaela Midon

Saneamento 4.0 exige novas competências profissionais

A atuação em um saneamento cada vez mais digitalizado exige que o engenheiro amplie seu repertório para além das competências clássicas de hidráulica, hidrologia e projetos de engenharia sanitária, segundo a engenheira Mickaela, que é professora no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ).

Passa a ser essencial dominar, em nível funcional, conceitos de ciência de dados, programação e análise estatística, de modo que o profissional consiga interpretar dashboards, validar resultados de algoritmos de IA e questionar de forma crítica as recomendações produzidas por sistemas automatizados. Familiaridade com ferramentas como GIS, SCADA, BIM (Building Information Modelling) e plataformas de gêmeos digitais deixa de ser um diferencial e se torna parte do cotidiano técnico.

Ao mesmo tempo, ganham relevância as competências socioemocionais e sistêmicas. Pensamento analítico e crítico, capacidade de resolver problemas complexos e visão interdisciplinar são essenciais para lidar com sistemas cada vez mais integrados. De acordo com a professora, o engenheiro precisa compreender, por exemplo, como decisões operacionais em uma estação elevatória podem impactar o consumo de energia, os custos tarifários, a qualidade da água e até a saúde de toda uma bacia hidrográfica. Nesse cenário, a comunicação clara com gestores públicos, órgãos reguladores e a sociedade torna-se estratégica, consolidando o profissional como elo entre dados técnicos, normas e políticas públicas.

“É indispensável postura de aprendizado contínuo: o ciclo de atualização tecnológica no setor é rápido, e temas como segurança cibernética de sistemas de controle, proteção de dados, regulação setorial, sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas precisam ser incorporados à formação”, recomenda a especialista.

 

Julianna Curado / Equipe de Comunicação do Confea 
Foto: acervo pessoal. Ilustrações geradas por IA a partir de dados fornecidos pela engenheira entrevistada 

 

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